Sociólogo espanhol, referência no estudo das redes sociais, diz que disseminação de informações falsas conduz Brasil ao totalitarismo e educação é a única esperança para o futuro.

“O Brasil está vivendo um novo tipo de ditadura”. A constatação, feita pelo sociólogo Manuel Castells, aponta para um futuro incerto e sombrio, principalmente quando se refere à educaçãobrasileira. A desinformação das massas, a ideologia conservadora e o desprezo às instituições publicas levam o país ao retrocesso. As declarações foram dadas em entrevista ao jornal O Globo divulgada nesta quarta-feira(17).

Não se pode fazer uma ditadura antiga, que se imponha com o exército, mas uma ditadura Orwelliana, de ocupar as mentes. Isso se faz acusando decorrupção qualquer tipo de oposição. Como a corrupção está em toda parte, então persegue-se apenas a corrupção de políticos e personalidades que se oponham ao regime. Esse tipo de ditadura só pode funcionar com um povo cada vez menos educado e mais submetido à manipulação ideológica.

Para o sociólogo, o Brasil está vivendo um novo tipo de ditadura, amparada pelos ataques contínuos à educação e pela disseminação das “fake news”, muito usadas por Bolsonaro nas últimas eleições e, ao que tudo indica, também fazem parte da “ comunicação” de seu governo. O sociólogo é uma das principais referências no estudo das redes, além de ser importante teórico da comunicação e autor de livros como “A Sociedade em Rede” e “Galáxia da Internet”.

Castells declarou que as escolas são fundamentais para evitar um futuro totalitário. Por isso, destacou que os cortes de Bolsonaro na educação são graves, assim como o projeto de inaugurar mais escolas militares no país. O sociólogo se referiu ao anúncio feito pelo governo federal do corte de R$ 7,3 bilhões no orçamento da educação, medida que atingiu desde o ensino infantil à pós graduação.

O espanhol também disse que para “estabelecer a verdade” cabe aos cidadãos retomarem o protagonismo das redes. O sociólogo esteve no Rio de Janeiro onde participou do seminário “Educação, Cultura e Tecnologia: Escola do Século XXI”, promovido pela Prefeitura de Niterói, e palestrou sobre “Comunicação, política e democracia”, na FGV.

Confira os principais trechos da entrevista:

Globo: Hoje, no Brasil, há pessoas que dizem que o nazismo era de esquerda, que as vacinas são ruins e que a terra é plana. Como isso é possível na era da informação?

Castells: Primeiro, as pessoas não funcionam racionalmente e sim a partir de emoções. As pesquisas mostram cientificamente que a matriz do comportamento é emocional e, depois, utilizamos nossa capacidade racional para racionalizar o que queremos. As pessoas não leem os jornais ou veem o noticiário para se informar, mas para se confirmar. Leem ou assistem o que sabem que vão concordar. Não vão ler algo de outra orientação cultural, ideológica ou política. A segunda razão para esse comportamento é que vivemos em uma sociedade de informação desinformada. Temos mais informação do que nunca, mas a capacidade de processá-la e entendê-la depende da educação e ela, em geral, mas particularmente no Brasil, está em muito mau estado. E vai ficar pior, porque o próprio presidente acha que a educação não serve e vai cortar os investimentos na área. Por um lado, temos mundos de redes de informação, de meios que invadem o conjunto de nosso pensamento coletivo, e ao mesmo tempo pouca capacidade de educação das pessoas para entender, processar, decidir e deliberar. Isso é o que chamo de uma era da informação desinformada.

O Globo: As universidades públicas e os professores brasileiros estão sob ataque?

Castells: Vocês estão vivendo um novo tipo de ditadura. As instituições estão preservadas, mas se manipulam tanto por poderes econômicos, quanto por poderes ideológicos. O Brasil, nesse momento, perdeu a influência da Igreja Católica que foi muito tradicional durante muito tempo na História, mas ganhou algo muito pior que são as igrejas evangélicas, para quem claramente não importa a ciência e a educação, porque quanto mais educadas e informadas estejam as pessoas, mais capacidade terão de resistir à doutrinação. O mesmo acontece com o presidente (Bolsonaro) e com o regime que está instalando. Não se pode fazer uma ditadura antiga, que se imponha com o exército, mas uma ditadura Orwelliana, de ocupar as mentes. Isso se faz acusando de corrupção qualquer tipo de oposição. Como a corrupção está em toda parte, então persegue-se apenas a corrupção de políticos e personalidades que se oponham ao regime. Esse tipo de ditadura só pode funcionar com um povo cada vez menos educado e mais submetido à manipulação ideológica.

O Globo: Como essa manipulação é exercida?

Castells: Nosso mundo da informação é um mundo baseado nas redes sociais e nas redes sociais há de tudo. Elas permitem a autonomia dos indivíduos, acreditávamos que era um instrumento de liberdade e é, mas é uma liberdade que é usada tanto pelos manipuladores como pelos jovens que tentam mudar o mundo. Foram desenvolvidas técnicas muito poderosas de desinformação e manipulação, que incluem a utilização massiva de robôs manipulados por organizações como o Movimento Brasil Livre (MBL) e financiadas pela extrema direita internacional, que estão preenchendo as redes sociais e manipulando-as muito inteligentemente, de forma que a construção coletiva do que ocorre na sociedade está totalmente dominada por movimentos totalitários, que querem ir pouco a pouco anulando a democracia. Por isso, é preciso atacar a educação, atacar os professores, as universidades, as humanidades e as ciências sociais, que são áreas que nos permitem pensar. Tudo o que significa pensar é perigoso. Por isso, digo que é uma ditadura, ainda que de novo tipo. É uma ditadura da era da informação.

Confira a entrevista na íntegra

Da Redação da Agência PT de Notícias com informações do jornal O Globo

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